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EN 1822 — Como interpretar seus requisitos

  • Foto do escritor: Pituã Brasil Business
    Pituã Brasil Business
  • 8 de mar.
  • 5 min de leitura

Subtítulo: Leitura técnica dos critérios de classificação, medição e aceitação de filtros HEPA e ULPA em ensaios com aerossóis.



Interpretar corretamente a EN 1822 exige conectar física de aerossóis, eficiência fracionária e instrumentação (contagem de partículas, espectrômetro de aerossol e medição de pressão diferencial) para garantir rastreabilidade, incerteza controlada e reprodutibilidade no teste de filtros.



1. Conceitos Fundamentais

A EN 1822 é uma família de normas focada na classificação e no ensaio de filtros HEPA e ULPA no contexto de eficiência frente a partículas submicrométricas e critérios de integridade. A premissa central é que a eficiência do filtro não é constante com o diâmetro de partícula: existe um ponto de menor eficiência (maior penetração) conhecido como MPPS (Most Penetrating Particle Size).


O comportamento de partículas em meios filtrantes fibrosos é governado por mecanismos de captura que dependem do diâmetro aerodinâmico e da velocidade do escoamento:


  • Difusão (Browniana): dominante em partículas muito pequenas; aumenta a probabilidade de colisão com fibras.

  • Intercepção: partícula segue linha de corrente e toca a fibra por proximidade geométrica.

  • Impactação inercial: relevante em partículas maiores e maiores velocidades; partícula “não consegue” seguir a linha de corrente.

  • Atração eletrostática: pode elevar eficiência aparente; exige atenção porque pode variar com carga, umidade e envelhecimento.

Em filtros de alta eficiência, o MPPS costuma ocorrer na faixa submicrométrica (tipicamente dezenas a centenas de nanômetros). O requisito normativo é avaliar o desempenho próximo a esse mínimo, evitando superestimar eficiência ao medir apenas tamanhos mais fáceis de reter.


Além da eficiência, a norma dialoga com variáveis de processo essenciais para aplicação e seleção:


  • Pressão diferencial (Δp): representa perda de carga no filtro em uma vazão definida; influencia consumo energético e conformidade de projeto.

  • Uniformidade de fabricação: variações no meio e na montagem podem gerar pontos de maior penetração local.

  • Estabilidade do aerossol de teste: distribuição granulométrica e concentração devem permanecer controladas para reduzir incerteza.


2. Métodos e Técnicas de Medição

A EN 1822 estrutura o teste de filtros com ênfase em medição baseada em aerossóis, determinando a eficiência/penetração em função do tamanho de partícula. O conceito-chave é a eficiência fracionária, isto é, eficiência por faixa de diâmetro, derivada de medições a montante e a jusante.



2.1 Medição por contagem de partículas e espectrometria

Para alta eficiência, a abordagem mais informativa é medir a penetração em função do diâmetro usando:


  • Espectrômetro de aerossol (ex.: classificadores/espectrômetros de mobilidade elétrica para submicrômetros): gera análise granulométrica e permite identificar MPPS.

  • Contagem de partículas (CPC/OPC, conforme faixa): fornece concentração numérica e, dependendo do princípio, distribuição por tamanho. Em sub-0,3 µm, frequentemente se utiliza contagem por condensação (CPC) associada a classificação.

A eficiência fracionária é calculada, para cada canal de tamanho, por:


Eficiência(%) = [1 − (Cjus/Cmon)] × 100, onde Cmon e Cjus são concentrações montante e jusante no mesmo canal.


Para filtros HEPA/ULPA, pequenas derivações de concentração, vazão e estabilidade do aerossol impactam fortemente o resultado. Por isso, a instrumentação deve ter linearidade adequada, baixo ruído e capacidade de operar com baixas contagens a jusante.



2.2 Diferenças entre métodos (óptico, fracionário e gravimétrico)

Embora a EN 1822 seja centrada em desempenho em faixas submicrométricas (com foco na MPPS), é comum coexistirem normas e métodos no laboratório. A tabela abaixo resume diferenças conceituais para evitar interpretações incorretas quando se comparam relatórios.


Em ambientes industriais, também é frequente comparar com normas de ensaio voltadas a ventilação geral e automotiva, como ISO 16890. Porém, ISO 16890 classifica por frações de material particulado (ePM) em faixas de tamanho, enquanto a EN 1822 trata especificamente de filtros de alta eficiência com foco em penetração mínima e integridade. A equivalência direta entre classes não é tecnicamente válida.



3. Equipamentos Usados no Setor

Interpretar a EN 1822 na prática implica mapear requisitos normativos para uma cadeia de medição coerente, com instrumentos calibrados e adequados ao regime de concentração e tamanho.



3.1 Geração e condicionamento de aerossol de teste

  • Geradores de aerossol (ex.: óleo/DEHS ou alternativas especificadas): devem produzir distribuição estável, com baixa variabilidade temporal.

  • Neutralizadores (carga): estabilizam a distribuição de cargas em partículas quando se utiliza classificação por mobilidade; reduzem vieses na medição.

  • Diluição e mistura: necessários para manter concentração dentro da faixa dinâmica do detector e reduzir erro de coincidência.


3.2 Instrumentação de medição

  • Espectrômetro de aerossol e módulos de classificação (SMPS/DMPS ou equivalentes): suportam eficiência fracionária e localização do MPPS.

  • Contadores de partículas (CPC/OPC): medem concentração a montante/jusante; a seleção depende da faixa de tamanho e limites de detecção.

  • Transdutores de pressão diferencial: monitoram Δp do elemento filtrante sob vazão controlada, permitindo correlação com permeabilidade do meio e conformidade de projeto.

  • Medidores/controladores de vazão: base para comparabilidade; variações de vazão alteram mecanismo dominante e deslocam a região de maior penetração.

Sistemas integrados de sistemas de teste e medição, como plataformas TOPAS para ensaios de filtros, são usados para automatizar sequências, estabilizar setpoints, registrar metadados (temperatura, umidade, vazão, Δp) e padronizar cálculo de eficiência e relatórios. O papel técnico desses sistemas é reduzir variabilidade operacional e elevar reprodutibilidade interlaboratorial.



4. Aplicações Reais em Indústria e Laboratórios

Os requisitos da EN 1822 aparecem em diferentes cenários onde o risco é controlado por desempenho de filtração em submicrômetros:


  • Salas limpas e HVAC crítico: qualificação de filtros HEPA/ULPA para controle de contaminação; integração com rotinas de validação e compliance.

  • Indústria farmacêutica e biotecnologia: proteção de processo e produto, com exigência de rastreabilidade metrológica e documentação de ensaio.

  • Laboratórios de P&D de meios filtrantes: comparação de formulações (fibras, ligantes, tratamentos) usando curvas de penetração vs. tamanho e Δp vs. vazão.

  • Turbinas a gás e ambientes severos: mesmo quando a classificação final não é EN 1822, a metodologia fracionária auxilia a entender comportamento de partículas finas e otimizar estágios (pré-filtro + alta eficiência).

  • Filtros automotivos/industriais: coexistem métodos (gravimétricos e contagem) para diferentes metas; a interpretação correta evita transferir conclusões de uma norma para outra sem equivalência física.

Em todos os casos, a interpretação adequada exige separar claramente: (i) classe/critério de aceitação, (ii) condição de ensaio (vazão, aerossol de teste, faixa granulométrica), e (iii) limites instrumentais (detecção, coincidência, saturação, diluição).



5. Boas Práticas e Parâmetros Críticos

Para resultados confiáveis e comparáveis em EN 1822, os parâmetros abaixo devem ser tratados como críticos de qualidade metrológica:



5.1 Controle de incerteza e reprodutibilidade

  • Estabilidade do aerossol de teste: monitorar concentração e distribuição; registrar variação ao longo do ensaio.

  • Calibração e verificação: garantir rastreabilidade de vazão, Δp e resposta do detector; realizar checagens de zero e linearidade.

  • Gestão de coincidência e diluição: evitar regimes onde o contador satura; manter contagem estatisticamente robusta a jusante.

  • Balanceamento montante/jusante: perdas em linhas, curvas e conexões afetam contagem; usar amostragem isocinética quando aplicável e minimizar deposição.


5.2 Armadilhas comuns de interpretação

  • Confundir eficiência “pontual” com curva fracionária: um único ponto de tamanho pode ocultar o MPPS.

  • Comparar diretamente com ISO 16890: objetivos e métricas diferem; deve-se reportar cada ensaio no seu referencial.

  • Desconsiderar Δp na seleção: eficiência alta com Δp excessiva pode inviabilizar aplicação por consumo energético ou limites de ventilador.

  • Ignorar efeito de carga eletrostática: pode gerar desempenho inicial alto e degradação ao longo do tempo; ensaios devem indicar condições e limitações.


5.3 Checklist técnico de execução

  1. Confirmar faixa de tamanho requerida e capacidade do espectrômetro de aerossol/contador.

  2. Estabilizar vazão e registrar temperatura/umidade.

  3. Verificar estabilidade do aerossol e neutralização (quando aplicável).

  4. Medir montante e jusante com linhas equivalentes e perdas minimizadas.

  5. Calcular eficiência fracionária e identificar MPPS; reportar Δp na condição de ensaio.


6. Conclusão Técnica

A EN 1822 é uma referência central para avaliar e classificar filtros HEPA e ULPA com base em fundamentos físicos de captura e em medições orientadas ao MPPS. A interpretação correta depende de selecionar métodos compatíveis (especialmente eficiência fracionária), controlar parâmetros de ensaio (vazão, aerossol de teste e pressão diferencial) e utilizar instrumentação apropriada (espectrômetro de aerossol, contagem de partículas e transdutores de Δp) com foco em incerteza e reprodutibilidade.


Quando esses elementos são tratados como um sistema metrológico completo, os resultados suportam decisões de compra, qualificação e compliance com maior confiabilidade e comparabilidade entre laboratórios.


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