EN 1822 — Como interpretar seus requisitos
- Pituã Brasil Business

- 15 de abr.
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Subtítulo: Leitura técnica dos critérios de classificação, medição e integridade para filtros HEPA e ULPA.
Uma interpretação correta da EN 1822 alinha requisitos de eficiência fracionária, MPPS e integridade do elemento filtrante a métodos instrumentais que suportam rastreabilidade e reprodutibilidade em laboratório e produção.
1. Conceitos Fundamentais
A EN 1822 é uma norma de ensaio e classificação para filtros HEPA e ULPA baseada em desempenho frente a aerossóis de teste e na identificação do ponto de maior penetração (MPPS, Most Penetrating Particle Size). Diferente de abordagens puramente gravimétricas, ela depende de contagem de partículas em faixas granulométricas e de conceitos de comportamento de partículas em meios fibrosos.
O mecanismo de captura em meios filtrantes fibrosos combina:
Difusão Browniana (dominante em diâmetros menores): aumenta a deposição por movimento aleatório.
Intercepção: a partícula segue a linha de corrente e toca a fibra.
Impactação inercial (dominante em maiores diâmetros): desvio insuficiente para acompanhar o fluxo.
Atrações eletrostáticas (quando aplicável): podem elevar a eficiência aparente e variar com carga e umidade.
O MPPS emerge do balanço entre difusão (mais forte em partículas pequenas) e mecanismos inerciais/interceptação (mais fortes em partículas maiores). Em filtros HEPA/ULPA, o MPPS tipicamente se localiza em dezenas a poucas centenas de nanômetros, dependendo de estrutura do meio, velocidade de face e condições do aerossol.
Parâmetros críticos na interpretação de requisitos incluem:
Eficiência e penetração: eficiência = 1 − penetração; a norma usa a pior condição no MPPS para classificação.
Análise granulométrica: medição por faixas (bins) para construir curva de penetração vs. diâmetro.
Pressão diferencial: caracterização aerodinâmica do elemento; afeta consumo energético e pode correlacionar com uniformidade e integridade do meio.
Uniformidade do fluxo: perfis de velocidade influenciam o MPPS efetivo e a sensibilidade do teste de filtros.
2. Métodos e Técnicas de Medição
A EN 1822, em linhas gerais, combina (i) determinação da eficiência/penetração em função do tamanho de partícula e (ii) verificação de integridade por varredura para localizar vazamentos. A escolha do método e instrumentação define a incerteza e a comparabilidade entre laboratórios.
2.1 Eficiência fracionária e determinação do MPPS
O núcleo metrológico é a eficiência fracionária, obtida a partir da razão de concentrações a montante e a jusante por faixa de tamanho:
Entrada (upstream): distribuição granulométrica do aerossol de teste.
Saída (downstream): distribuição após o filtro.
Penetração fracionária: P(Dp) = C_down(Dp) / C_up(Dp).
A determinação do MPPS requer resolução adequada de tamanho e estabilidade de concentração. A norma privilegia um aerossol com distribuição controlável e medição por espectrômetro de aerossol (por exemplo, espectrometria por mobilidade elétrica para a faixa submicrométrica). Em filtros de altíssima eficiência, pequenas derivações na razão downstream/upstream geram grandes variações na eficiência calculada, elevando a necessidade de controle de ruído e contagens estatisticamente significativas.
2.2 Contagem óptica versus espectrometria por mobilidade
Em termos de sistemas de teste e medição, duas famílias de instrumentação são comuns:
Contadores ópticos de partículas (OPC): medem por espalhamento de luz, tipicamente acima de ~0,1–0,3 µm. Podem ser úteis para certas verificações e para classes menos restritivas, mas podem não cobrir bem a região do MPPS de ULPA.
Espectrômetros por mobilidade elétrica (SMPS/DMAs e equivalentes industriais): fornecem alta resolução na faixa nanométrica, suportando a identificação do MPPS e a curva de penetração com maior fidelidade.
A seleção deve considerar: faixa de diâmetro relevante, perdas na linha de amostragem (difusão/deposição), tempo de varredura, estabilidade do aerossol e requisitos de incerteza. Em geral, quanto maior a classe (maior eficiência), mais crítica se torna a medição próxima ao MPPS com instrumentação apropriada.
2.3 Ensaios de integridade e varredura de vazamentos
Além da classificação global, a EN 1822 exige a avaliação de integridade para localizar vazamentos (falhas de vedação, canais preferenciais, microfissuras, defeitos de mídia). Isso é feito por varredura no lado jusante, com sonda, mapeando concentrações e comparando a um valor de referência a montante.
Pontos críticos nesse tipo de teste de filtros:
Isocineticidade da amostragem: reduz viés de tamanho por diferenças entre velocidade de aspiração e velocidade local do fluxo.
Resolução espacial e velocidade de varredura: determinam a probabilidade de detectar vazamentos estreitos.
Definição de limite: o critério de reprovação depende da razão downstream/upstream medida no ponto varrido e da classe do filtro.
2.4 Relação com outras normas de ensaio
É essencial não confundir escopos. A EN 1822 é específica para HEPA/ULPA e sua classificação por MPPS e integridade. Já a ISO 16890 se aplica a filtros de ventilação geral, com eficiência por faixas (ePM) e métodos associados a partículas de diferentes regimes. Em ambientes industriais, cadeias de qualificação podem combinar normas: por exemplo, pré-filtros avaliados em ISO 16890 e estágios finais em EN 1822.
3. Equipamentos Usados no Setor
Um arranjo típico de bancada conforme a EN 1822 integra geração de aerossol, condicionamento de fluxo, instrumentação de medição e controle de perdas. A seguir, componentes e seu papel técnico, incluindo soluções comuns no mercado como os sistemas TOPAS.
3.1 Geração e condicionamento de aerossol de teste
Geradores de aerossol (óleo/DEHS, PAO ou equivalente): produzem aerossóis estáveis com distribuição ajustável.
Neutralizadores de carga: reduzem efeitos eletrostáticos para melhorar comparabilidade e estabilidade de leituras.
Dutos e misturadores: homogenizam concentração e perfil de escoamento a montante do filtro.
3.2 Instrumentação de medição
Espectrômetro de aerossol para análise granulométrica e determinação do MPPS.
Contadores de partículas para regimes onde a faixa óptica seja suficiente e para rotinas de verificação.
Medidores de vazão (mass flow/elemento laminar): garantem condição de ensaio dentro de tolerâncias.
Sensores de pressão diferencial: medem Δp do filtro, útil para especificação e diagnóstico.
Em aplicações industriais, plataformas integradas (ex.: sistemas TOPAS para teste de filtros) agregam controle de vazão, geração de aerossol, comutação de amostragem upstream/downstream, aquisição de dados e relatórios, visando repetibilidade operacional e redução de variabilidade entre operadores.
3.3 Bancadas para meios filtrantes
Antes do elemento final, é comum caracterizar meios filtrantes em dispositivos específicos (planos ou em amostras). Esses sistemas permitem correlacionar gramatura, permeabilidade, eletrostaticidade e estrutura com eficiência fracionária e pressão diferencial, reduzindo iterações de protótipo.
4. Aplicações Reais em Indústria e Laboratórios
A interpretação correta da EN 1822 impacta diretamente o projeto, a validação e o controle de qualidade de sistemas de filtragem.
Salas limpas e indústria farmacêutica: filtros finais HEPA/ULPA suportam classes de limpeza e controle de contaminação. Ensaios de integridade e requalificação dependem de contagem de partículas e critérios de vazamento.
Laboratórios de P&D: desenvolvimento de mídia e pleatings exige curva completa de penetração e estudo do MPPS, além de sensibilidade a variações de umidade, carga e velocidade.
Fabricantes de filtros: a conformidade exige rastreabilidade e consistência lote a lote, com controle de Δp, uniformidade e integridade.
Turbinas a gás e processos críticos: pré-estágios (não EN 1822) podem seguir ISO 16890, mas a proteção de componentes sensíveis pode envolver estágios de alta eficiência e validações de desempenho sob condições definidas.
5. Boas Práticas e Parâmetros Críticos
Para maximizar reprodutibilidade e reduzir incerteza em teste de filtros segundo EN 1822, recomenda-se:
Controle rigoroso do aerossol de teste: estabilidade de concentração, distribuição e neutralização; monitorar deriva temporal e repetir calibrações.
Gestão de perdas na amostragem: minimizar comprimentos, evitar curvas, selecionar materiais compatíveis e avaliar deposição difusiva para nanopartículas.
Comutação upstream/downstream com validação de sincronismo: reduz viés por transientes de concentração.
Definição de tempos de contagem: garantir estatística adequada; em altíssimas eficiências, o downstream pode exigir maior tempo para reduzir incerteza de Poisson.
Verificação de vazão e estanqueidade do duto: vazamentos externos podem simular falhas do filtro.
Controle de pressão diferencial e condições ambientais: registrar Δp, temperatura e umidade para comparabilidade e diagnósticos.
Erros comuns incluem: interpretar classe apenas por um único diâmetro nominal, desconsiderar o MPPS real do conjunto, usar instrumentação óptica fora da faixa adequada, e subestimar o efeito de perdas de amostragem na análise granulométrica.
6. Conclusão Técnica
A EN 1822 estabelece um arcabouço metrológico exigente para classificação e integridade de filtros HEPA e ULPA, fundamentado em eficiência fracionária, determinação do MPPS e verificação de vazamentos por varredura. Interpretar corretamente seus requisitos requer domínio de física de aerossóis, comportamento de partículas, contagem de partículas e critérios de pressão diferencial, além de uma seleção coerente de sistemas de teste e medição.
Quando a instrumentação (como espectrômetro de aerossol, contadores e sensores de Δp) e os procedimentos são bem especificados, obtêm-se resultados mais confiáveis, comparáveis e rastreáveis, reduzindo riscos de não conformidade e melhorando o controle de qualidade em produção e validação.
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